O que fazer em Ushuaia — Laguna Esmeralda e Glaciar Vinciguerra

Reunimos aqui nesse posts dois incríveis passeios para conhecer em Ushuaia além do óbvio. Se você curte trekking e contanto com a natureza, esse texto é para você.

Olha, antes de qualquer coisa, preciso desabafar com vocês. Esses dois trekkings que fizemos complicou minha vida como blogueira e eu já te explico o porquê. Foram dois dias de intensas caminhadas que tiveram como recompensa paisagens indescritíveis, sendo impossível traduzir em palavras toda a beleza que vivenciamos nesses dois passeios — você já vai confirmar isso.

Outro ponto que nos agradou imensamente, foi que procurávamos coisas sobre o que fazer em Ushuia, mas que fugisse do óbvio. Inquestionavelmente, todos os lugares da Tierra del Fuego são lindos e todos os passeios valem a pena, mas queríamos algo a mais. O tchan para a nossa viagem, se é que você me entende.

Foi aí que a galera super gente boa do Brasileiros em Ushuaia — sim, uma agência de brasileiros para brasileiros no fim do mundo — nos apresentou esses dois trekkings como opção: Laguna Esmeralda e o combo Laguno de los Témpanos e Glaciar Vinciguera. E, claro, topamos na hora.

Laguna Esmeralda

O que fazer em Ushuaia — Laguna Esmeralda

Alimentada pelo imponente Glaciar Ojo del Albino, a Laguna Esmeralda é um lugar que precisa ser visto. A sua cor faz jus ao seu nome e isso por si só já seria um encanto. No entanto, a mistura do bosque, com as montanhas e seu glaciar torna esse local ainda mais especial.

De antemão te falo que esse trilha tem uma boa relação esforço X recompensa. Além de ser bem pertinho da cidade de Ushuaia, menos de 20km de distância.

Quando combinamos a excursão com a galera do Brasileiros em Ushuaia, eles falaram que no dia anterior ao passeio, por volta das 22h, nos seria enviado uma mensagem pelo Whatsapp com o horário em que a van passaria na Aldea Nevada (nossa hospedagem) para nos pegar. Assim foi feito. Recebemos a mensagem falando que nos buscariam as 8h30.

Já acostumados com esses horários de agência, não demos muita bola para o horário marcado. Para nossa surpresa, a van nos esperava pontualmente às 8h30. Foi um tal de cata cata. Pega mochila. Pega o gorro. Não esquece a máquina. Calça o tênis — ufa! Embarcamos. Isso acontece porque eles tem uma pessoa responsável pela logística que faz todo o cálculo, após o expediente, de onde cada cliente está hospedado e o tempo que vai levar para buscá-los — ponto para eles.

Enfim, todos dentro da van, seguimos viagem pela Ruta 3 em direção aos vales, até chegar na proximidade do Cerro Castor — um dos principais parques invernais da Tierra del Fuego.

A trilha e a nossa experiência

Dentes incisivos do Castor

Dentes incisivos do Castor

Desde que saltamos da van, já iniciamos a trilha por dentro do bosque. Sem muitos esforços, chegamos em uma grande área de turfa, com a vegetação bem aberta e uma enorme castoreira. Aqui o guia nos falou um pouco da ação devastadora do castor na região. Esses animais não são típicos de Ushuaia, foram introduzidos pelo homem que trouxe 25 casais em 1946 na intenção de incentivar a produção de artigos com a pele do animal na cidade.

O que era esperado aconteceu. Sem predadores naturais na região e com sua reprodução acelerada, os castores saíram do controle e tomaram diversos bosques. Mesmo não tendo predadores, seu instinto animal faz que ajam como se tivesse, fazendo represas para inundar o terreno e criar suas tocas no meio da área inundada. Além disso, eles precisam constantemente roer troncos para tentar desacelerar o crescimento de seus dentes — crescem durante toda a vida — e assim acabam por derrubar inúmeras árvores.

O terreno nessa parte revesa entre muita lama — principalmente se tiver chovido — e turfa. Andar pelas áreas de cultivo de turfa é uma sensação, no mínimo, diferente. Mais parece uma enorme esponja molhada e a ideia que você tem é que seu pé vai afundar a qualquer momento.

Terminado o turbal , entramos novamente em um bosque, mas dessa vez com uma leve ladeirinha. É só controlar a sua respiração e fazer algumas paradas estratégicas e irá conseguir tirar de letra.

Novamente nos despedimos das árvores para mais uma sequência de turfa e lama, acrescentados de rio e alguns riachos. A trilha é consideravelmente tranquila. O que dificulta mesmo é a lama, principalmente em semanas de chuva. Quando eu falo lama, é lama de verdade. risos

Trilha para Laguna Esmeralda

Trilha para Laguna Esmeralda

No melhor estilo Juliana de ser, em um momento de distração, atolei meu pé fortemente em uma dessas áreas. O grupo todo teve que parar na intenção de me ajudar. O pior é que a minha bota não estava tão bem amarrada, daí cada força que eu fazia para tentar tirar o pé da lama — literalmente — a sensação que eu tinha era que a bota ia ficar. Sim, tudo isso potencializado pela minha crise de riso.

Ah, nessa área do rio vimos um grande grupo desarmando o acampamento. Muito provável que tenham subido o Glaciar Ojo del Albino e por isso resolveram acampar para conseguir continuar a caminhada no primeiro horário. Conclusão: a quem interessar possa, dá pra acampar no local.

Curtindo a Laguna Esmeralda no melhor estilo cachorrinho de madame

Após toda essa cena, subimos mais um pouco por um trecho de areia e pedras para então chegar na tão esperada Laguna Esmeralda. Que

com a sua cor estonteante, impressionou a todos.

 

Pode ser um pouco de egoísmo da minha parte, mas uma das coisas que mais me agradou nesse trekking é que a lagoa era praticamente só nossa. Diferente dos demais pontos turísticos de Ushuaia, a Laguna Esmeralda ainda não tem um turismo tão massivo. Isso, sem dúvidas nenhuma, torna o local ainda mais encantador.

Uma dica: leve gorro, cachecol, luvas e agasalhe-se. Porque o local gela, mas gela de verdade. E ninguém merece chegar nesse lugar mágico e não conseguir aproveitar porque está morrendo de frio, né? Por favor!

Informações gerais

Foram, aproximadamente, 1h40 para percorrer o trajeto desde que saltamos da van até a impressionante lagoa.

Período de realização: 11/10 até 24/06.
Saída: 9h – Terça, Quinta e Sábado.
Duração: 6h.
Dificuldade: Média.
Distância: 9,4 Km (4,7 Km Ida).
Altitude máxima: 411 m acima do nível do mar.
Terreno: plano e em alguns momentos inclinado, úmido, com lama, pedras e, possivelmente, neve.
Local: Laguna Esmeralda.

Brasileiros em Ushuaia - Laguna Esmeralda

Brasileiros em Ushuaia – Laguna Esmeralda

Laguna Esmeralda

Laguna Esmeralda

O que fazer em Ushuaia — Laguna de los Témpanos e Glaciar Vinciguerra

Assim que acordei, já sabia que seria um dia especial. Fomos brindados com um céu relativamente limpo e, eventualmente, com o sol dando as caras. Evidentemente, o lugar é lindo em qualquer dia, mas posso dizer que o sol dá um up legal, deixando tudo ainda mais bonito — se é que isso possível.

Às 9h a van já  batia em nossa porta — estávamos atrasados, as usual. Depois que pegamos o restante do grupo, em menos de 30 minutos já estávamos na base da cadeia de montanhas Vinciguerra. Todos devidamente equipados com os seus bastões de caminhada, começamos o trekking.

Estamos rindo, mas a perna já estava doendo

Estamos rindo, mas a perna já estava doendo

No primeiro momento, vamos caminhando à margem de um rio até uma ponte adaptada. Ainda não é a trilha propriamente dita, mas já começamos a ser presenteados com belas imagens, que vão sendo potencializadas conforme vamos avançando a caminhada. Como na maioria dos bosques em Ushuaia, certamente você vai se deparar com algumas castoreiras e aqui não foi diferente. Além disso, atravessamos uma grande área de cultivo de turfa, também muito comum na região.

São aproximadamente 45 minutos desde as tranqueiras até o começo de fato da trilha. Mas não se preocupe, essa parte aqui passa que você nem sente. Toda a caminhada vai sendo embalada pelo som do rio. Daqui já é possível avistar o nosso objetivo — encanta e assusta ao mesmo tempo.

Uma das muitas paisagens incríveis da trilha para o Glaciar

Uma das muitas paisagens incríveis da trilha para o Glaciar

A trilha e nossa experiência

Agora as turfas dão lugar às lengas — árvore típica da região — e a gente começa a subir. Posso dizer que a trilha é marcada por 3 grandes e cansativas subidas. A dica aqui é evitar movimentos muito bruscos, num ritmo constante, passo a passo, sem grandes extravagâncias. O nosso guia fez questão de deixar claro a todo momento que um grupo que faz trekking é como se fosse uma só pessoa. Então precisamos caminhar juntos, sempre respeitando o limite do outro.

Assim fomos caminhando por mais ou menos 2h15 até a primeira grande pausa. Aqui é um ótimo lugar para tirar foto, recarregar as energias e abastecer as garrafinhas com a água da cachoeira. Se a trilha tivesse acabado aqui, já valeria a pena, mas o melhor ainda nos

Essa parte é tensa, mas você precisa tirar foto

Essa parte é tensa, mas você precisa tirar foto

aguardava.

Uns 15 minutinhos de descanso e seguimos para começar a parte que eu achei mais punk. São só mais uns 20 minutos de subida, mas nessa hora o seu corpo começa a dar pequenos sinais de cansaço — traduzindo: você começa a pensar onde estava com a cabeça quando resolveu fechar esse passeio.

Essa subida merece especial atenção por dois motivos: primeiro por ser algo que eu defini como “penhasco” — desculpa, não sou boa com os nomes de acidentes geográficos. E segundo porque a vista dessa parte é do caramba — fui censurada, mas vocês captaram o que eu quis dizer, né? É sério, sei que vai estar cansado e tal, mas não deixe de tirar boas fotos daqui.

Chegamos! Sabe quando você ficou balançado se deveria ter fechado o passeio ou não? Esse pensamento será desconstruído com o que se enxerga nesse momento. Uma linda, fascinante e encantadora lagoa na cor turquesa e emoldurada pelo glaciar.

Brasileiros em Ushuaia – Laguna de Los Tempanos e Glaciar Vinciguerra

Um dia inteiro seria pouco para ficar admirando a beleza desse lugar. Ainda mais com o dia ensolarado e o céu azulzinho, formando um cenário surreal, parecendo uma pintura. Aproveitamos para fazer o lanche — melhor hora do dia — e tirar MUITAS fotos. É sério, desbravem esse lugar, tem cada ângulo incrível.

Todos comidos, quero dizer, satisfeitos, demos sequência à caminhada, indo em direção a incrível e curiosa caverna de gelo, que a cada inverno tem um formato diferente. São até 5 m de espessura. Surreal!

Mais um pouco de foto e descanso e depois retornamos — infelizmente, porque o local é fantástico.

Caminho para a Caverna de Gelo

Caminho para a Caverna de Gelo

Informações gerais

Ao todo foram umas 3h de caminhada, desde o momento que saímos da van até a hora que chegamos na Laguna de los Témpanos.

Verão: 15/09 até 10/05.
Saída: 9h00 – Segunda e Sexta.
Duração: 9h.
Dificuldade: Média/Alta.
Distância: 14km (~7km ida).
Altitude: 800m.
Local: Bosques, Castoreira, Cultivo de Turfas, Laguna los Témpanos e Glaciar Vinciguerra.
Terreno: inclinado, com pedras, lamas e possível gelo e/ou neve.

Caverna de Gelo

Caverna de Gelo

Considerações finais:

  1. Estejam sempre vestidos no sistema de camadas, isso porque apesar do frio, o esforço físico é constante e, muitas vezes, você pode começar a suar. Principalmente quando passa por entre a mata mais fechada.
  2. Pode fazer esses trekkings sozinho? Pode! Eu recomendo? Não! Apesar da trilha ser razoavelmente sinalizada, tem partes um pouco confusas, pelo menos pra mim. Agora falando em especial do trekking do Vinciguerra, são 7 km de caminhada e com bastante trechos de subida, ter alguém especializado aqui faz total diferença.
  3.  Usem botas impermeáveis! Acho que é o item mais importante para esses trekkings, até mais do que a água, sério. Na semana em que fomos, havia chovido uns dias antes. Já sabe o resultado, né? Naquele momento de desatenção que enfiei o meu pé todo na lama, a minha sorte é que a bota é de cano alto. Tem umas empresas que alugam galochas na cidade, talvez seja uma opção.
  4. Se tiver que escolher apenas um passeio e tiver um bom condicionamento físico: vá ao Glaciar. Ele se tornou a nossa paixão em Ushuaia.
Uma ótima pedida sobre o que fazer em Ushuaia

Uma ótima pedida sobre o que fazer em Ushuaia

Laguna de Los Tempanos

Laguna de Los Tempanos

Laguna de los Tempanos

Simplesmente perfeita, nem precisa de edição.

Ficamos extremamente apaixonados pelo que vimos e a todos que nos pedem uma indicação sobre o que fazer em Ushuaia, respondemos em uníssono: Laguna Esmeralda e Glaciar Vinciguerra. Espero que tenhamos conseguido transmitir toda a beleza eternizada em nossas mentes.

Resultado final das nossas botas

Resultado final das nossas botas

Queremos agradecer também à toda equipe do Brasileiros em Ushuaia, vocês foram demais! Muito obrigada por essa oportunidade.

O Para Onde Fomos fez os passeios em parceria com o Brasileiros em Ushuaia. No entanto, tal condição não interfere no relato das nossas experiências. Só divulgamos o que testamos e de fato gostamos. Muito obrigada por essa linda oportunidade.



  • Paulo Henrique

    Muito bom o post, parabéns pela viagem. Irei em Dezembro para Ushuaia com minha esposa. Gostaria de saber se para o Glaciar Vincigueira é muito cansativo e se tem que tem algum preparo físico especial, ou se qualquer um consegue fazer esse passeio. Já fechamos o passeio da Laguna Esmeralda e estou em dúvida se fecho ou não do Glaciar Vincigueira. O que recomendam?

    • Yuri

      Obrigado, Paulo!

      Cara, é um trilha considerada de dificuldade média-alta, porque tem bastante subida e o trecho final é punk. Não precisa escalar nem nada, mas é uma subida íngreme pelas pedras, o que força bastante as pernas. São 7 km pra subir quase 800 metros numa caminhada de 3h, então é bom levar isso em consideração, comparando com alguma outra experiência de trilha que você já teve.

      Nós não somos atletas, mas também não somos sedentários e sentimos a subida. Mas seguindo num ritmo constante e com as paradas estratégicas que o guia fazia, nós e o grupo inteiro conseguimos chegar bem, sem maiores problemas.

      Também não somos hikers, apesar de já termos feitos algumas trilhas. Aliás, se você conhece as trilhas do RJ, podemos dizer que a do Vinciguerra foi mais a difícil que fizemos (apesar de não termos feito a da Pedra da Gávea).

      Eu diria o seguinte: não acho que exija preparo físico especial, então se vocês não têm nenhum problema de saúde, nem são sedentários e topam encarar um desafio, vale a pena. A recompensa é simplesmente fantástica. É difícil descrever a beleza do local, acho que as fotos mostram isso. Assim que avistamos a lagoa, o cansaço simplesmente desapareceu de nossas cabeças e só queríamos curtir a beleza inigualável do lugar.

      A Laguna Esmeralda é linda demais, mas a Laguna de Los Témpanos é incomparável (talvez por conta do clima ter colaborado mais nesse dia), algo que ninguém deveria perder a oportunidade de ver, se tiver condições.

      É isso rs
      Se restar mais alguma dúvida, pode ficar a vontade e perguntar!

  • Patrícia Telpes

    Eu ia para a Laguna e como tenho poucos dias, acho que vou optar pelo Glaciar. Mas minha duvida é, será que dou conta de fazer a trilha? Eu to indo disposta a caminhar, mas não sou atleta, então to na duvida. Mas as fotos são incríveis… Dúvida cruel.

    • Juliana Noronha

      Oi, Patricia! Tudo bem?
      Sei que sou suspeita para falar, mas se eu tivesse poucos dias, investiria no Glaciar com certeza!!!
      A caminhada é pesada sim, mas não é nada surreal e o guia vai parando com frequência para respeitar o tempo de todo mundo.
      Quando nós fomos, não tinha nenhum atleta, todo mundo penou para subir, mas conseguimos.
      Espero ter ajudado. Qualquer dúvida, é só falar.
      Beijos!!!

      • Patricia

        Obrigada pela resposta! Então vou topar o desafio, amei as fotos e acho que vou amar o passeio. Só mais uma dica: vocês usaram que calçado para o trekking? Bota tipo quechua, timberland, ou foram de tenis normal? Eu só tenho tênis normal, mas to pensando em investir numa bota, simples, pois quero fazer esse trekking e também o Perito Morendo em El Calafate…

        • Juliana Noronha

          Boooa!!

          A gente usa uma da Bul Terrier, foi uns 330/400 reais, não lembro direito. O ideal é comprar uma bota impermeável e se possível respirável também, para evitar do seu pé ficar suado. Ir de tênis normal é um pouco ruim, porque você passa por alguns trechos de lama e riachos, daí para molhar o tênis é mais fácil, né?
          Assim que você comprar a bota, já começa usar para testar e amaciar. Para não acontecer dela machucar seu pé no meio do trekking.